21/09/2011

A máquina que produz rostos - Deleuze

Deleuze, no platô “Ano zero – rostidade”, deleita-nos com uma reflexão textual que não se conforma em ser filosófica e, por isso, paira no território crepuscular da poesia. Talvez porque não pudesse ser diferente, já que o texto trata da intratável máquina abstrata produtora de rostidade, rostidade que recobre de significância e subjetividade tudo em que se projeta, seja a cabeça ou outras partes do corpo, o corpo, objetos ou paisagens.

“Essa máquina é denominada máquina de rostidade porque é produção social de rosto, porque opera uma rostificação de todo o corpo, de suas imediações e de seus objetos, uma paisagificação de todos os mundos e todos os meios” (DELEUZE, 1996, p. 49).
Ao longo do texto, metáforas surpreeendentes e poderosas procuram dar conta do que é um rosto. Rosto é dispositivo. Superfície. Paisagem. Mapa. Aquilo do que não podemos escapar. Conto de terror. “O rosto é Cristo” (p.43). E também um verdadeiro porta-voz.
O rosto surge no entrecruzamento de dois eixos, duas semióticas bastante diferentes: a da significância, que “não existe sem um muro branco sobre o qual inscreve seus signos e suas redundâncias”; a da subjetivação, que “não existe sem um buraco negro onde aloja sua consciência, sua paixão”, lugar de ressonância (p.31). Por essa razão, rostos fazem parte do curioso sistema muro branco-buraco negro: é o muro branco (tela) no qual se inscrevem os buracos negros da subjetividade (olhos). Mas não só.

“O rosto constrói o muro do qual o significante necessita para ricochetear, constitui o muro do significante, o quadro ou a tela. O rosto escava o buraco negro da subjetividade como consciência ou paixão, a câmera, o terceiro olho. Ou será preciso dizer as coisas de outro modo? Não é exatamente o rosto que constitui o muro do significante, nem o buraco da subjetividade. O rosto, pelo menos o rosto concreto, começaria a se esboçar vagamente sobre o muro branco. Começaria a aparecer vagamente no buraco negro. [...] E nesse sistema muitas combinações já seriam possíveis: ou os buracos negros se distribuem no muro branco, ou o muro branco se afila e vai em direção a um buraco negro que os reúne todos, precipita-os ou “aglutina-os”. Ora rostos aparecem no muro, com seus buracos; ora aparecem no buraco, com seu muro linearizado, espiralado” (DELEUZE, 1996, p. 32-33).
A cabeça, como parte do corpo, participa de outro sistema, o sistema volume-cavidade.
O rosto, parte do sistema superfície-buraco, sobrecodifica a cabeça, rostificando-a. E não só a cabeça, mas todas as partes do corpo, o corpo todo, com suas cavidades e volumes. E também todos os objetos ao redor. Rostificação, fetichismo, erotomania.
E, embora produzido na humanidade, não atende a necessidades humanas.
O rosto é inumano. É close. Rosto-bunker.
“A tal ponto que, se o homem tem um destino, esse será mais o de escapar ao rosto, desfazer o rosto e as rostificações, tornar-se imperceptível, tornar-se clandestino, não por um retorno à animalidade, nem mesmo pelos retornos à cabeça, mas por devires-animais muito espirituais e muito especiais, por estranhos devires que certamente ultrapassarão o muro e sairão dos buracos negros, que farão com que os próprios traços de rostidade se subtraiam enfim à organização do rosto, não se deixem mais subsumir pelo rosto, sardas que escoam no horizonte, cabelos levados pelo vento, olhos que atravessamos ao invés de nos vermos neles, ou ao invés de olhá-los no morno face a face das subjetividades significantes” (DELEUZE, 1996, p.36).
Mas, do sistema corpo-cabeça ao sistema rosto, não há evolução. O que se tem são agenciamentos de poder diferentes. O sistema corpo-cabeça é relativo às sociedades “primitivas”, de “semiótica não-significante, não subjetiva, essencialmente coletiva, polívoca e corporal” (p.42). Nesse sistema, pinturas, máscaras e tatuagens “consagram a multidimensionalidade dos corpos” (p. 43). “Mesmo as máscaras asseguram a pertença da cabeça ao corpo mais do que enaltecem um rosto” (p. 43); há profunda desterritorialização, mas esta não estabelece conexão entre corpo e rostidade. Antes, o corpo serve os devires-animais relativos ao espírito animal que preenche os volumes e espia pelas cavidades (espírito-águia, espírito-jaguar). O poder dos antigos xamãs passa pela corporeidade, pela animalidade e pela vegetabilidade – não pelo rosto. No código desta cultura, os “primitivos” não têm rosto, não precisam de um rosto.

O rosto, portanto, não é um universal, embora possa exercer uma função mais geral. Rostos são construções bastante particularizadas, cujos traços de rostidade (re)codificam toda linguagem.

A máquina abstrata que produz rostidade introduz-nos em um rosto mais que nos dar a posse de um. E, por meio dele, nos distingue. O rosto elementar, que rostifica o corpo, nos constitui como unidade para, então, nos implicar em relações binárias e dicotômicas. Nos conforma, reconhece, rejeita. Porque a máquina abstrata também exerce o papel de detector de desvianças, imposição de racismos.
"Exatamente porque o rosto depende de uma máquina abstrata, ele não supõe um sujeito nem um significante que já estejam presentes; mas ele lhes é conexo, e lhes dá a substância necessária. Não é um sujeito que escolhe os rostos, como no teste de Szondi, são os rostos que escolhem os sujeitos" (DELEUZE, 1996, p. 48).

Referências: 
DELEUZE, Gille; GUATARRI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996. Vol.3.
Imagem: "O sono", pintura de Salvador Dalí (1937).


Texto produzido para a aula  da Profa. Lúcia Santaella - Regimes de sentido na hipermídia e nas redes: identidades e subjetividades nas novas mídias. Área de concentração: Signo e significação nas mídias. Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP.
 

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