Desde que tomou consciência de que é um ser para a morte, o que o tornou humano, o ser humano segue em espiral sua trajetória de manutenção da vida. Para isso, desenvolveu inteligências e sensibilidades, a linguagem, a imaginação; dominou o fogo, desbravou a terra, desvendou os mares, alçou vôos... quer tocar o infinito e "entender", como se isso bastasse para livrá-lo da dança cósmica das gerações.
Diante da morte, aquela que é considerada a única certeza absoluta e a única para a qual não há "solução", tudo se reconfigura. Entendi isso quando vi meus filhos mais velhos, trazendo suas esposas e filhos até mim; e quando me vi, senil e desmemoriada, desprovida de orgulho e vaidade, guarnecida com o sorriso bondoso dos que muito viveram; e quando me vi corpo inerte, enrugado, centro das atenções em rito fúnebre. Neste momento, pensei: Quem eu sou? E descobri que não sou os títulos e os troféus, não sou a quantidade de zeros no meu salário, não sou as roupas e os enfeites que usei durante toda a vida.
Eu sou o sonho de amor de meus pais, consumado no ato divino da cópula.
Eu sou a luz que cintila em meu nome, nome que minha mãe desejou por mim.
Eu sou a criança que fui, sou gargalhada, sou atordoamento.
Eu sou todas as tardes que brinquei no quintal. Sou a alegria.
Eu sou este corpo dinâmico em sintonia com o ritmo divino dos corpos celestes - universo de carne, terra, sangue, água, fogo e ar. Sábio corpo que me guia pela misteriosa natureza de sobreviver!
Eu sou mulher, fêmea, divindade feminina. E agradeço todos os dias por ter um homem devotado, parceiro, guerreiro e sacerdote, guardando-me o caminho, acompanhando-me no percurso, compartilhando comigo a imensidão.
Eu sou amor em movimento, coração-relógio, criação.
Eu sou mãe. E deposito meus três filhos, continuidades do meu corpo, da minha alma e do meu coração, convergências do amor que senti e pulsei, os três melhores sonhos da minha vida, o que soube (sem saber) fazer de melhor, no altar da divina Terra, sob e no cosmos.
Descobri que vida e morte são conceitos.
Que tudo pulsa em movimento e transformação.
Não chorem minha morte.
Não se apiedem, sobre meu cadáver, por nossa inegável sina.
Tudo está em conformidade.
Guardem a última imagem de meu rosto com a certeza de que fui/sou feliz.
E devo seguir transformando-me (como sempre foi/é) para permanecer... átomos pulverizados como sementes na terra, estrelas no ar, cores nas flores e frutos, vida em caracóis e borboletas.
Pois a mensagem que há milênios as carcaças arqueológicas de nossos ancentrais gritam - e eis que passo a fazer coro com elas - é: ...
-----------------------------
Ao som de Gita (Raul Seixas)
"Eu sou a luz que se apaga. Eu sou a beira do abismo. Eu sou o Tudo. E o nada".
-----------------------------
Ao som de Gita (Raul Seixas)
"Eu sou a luz que se apaga. Eu sou a beira do abismo. Eu sou o Tudo. E o nada".
6 comentários:
Querida Cíntia!
O seu texto é tocante!
Jorge
Obrigada, Jorge! Aproveito para dizer que estou com saudades!
Cíntia, querida, seu texto é lindo, como tudo o que vc. escreve.
Percebo em você uma energia pulsante que se expressa muito bem.Sua vontade de conhecer, aprender, descobrir, só é superada pela vontade de compatilhar tudo isso com todos que estiverem a seu redor,dispostos a ouvi-la e senti-la.
O que somos? Somos a chama divina que nos faz o TODO.
Não somos Cintia, Ana, professoras, mães, filhas, mulheres, brasileiras, inteligentes,magras, gordas,felizes, tristes, sensuais,equilibradas...Não, não somos.
Ainda não entendi exatamente como é isso, mas sei que somos Atman,Deus,Luz,Energia, menos o que pensamos ser.
O Tudo e o Nada.
Beijos, Hari OM
Ana, muito obrigada por suas palavras.
Esse texto é muito especial para mim, pois relata uma vivência. Eu de fato enxerguei o futuro e vi como o tempo passa rápido. Num instante, vi meus filhos mais velhos, casados. Noutro, já estava muito velhinha... e então, morta, participando do meu próprio funeral.
O que existe depois da morte?
Não encontrei um tribunal, nem ninguém que me guiasse. Apenas uma vontade tremenda de prestar contas à Vida. De que forma eu tinha contribuído com a Vida durante minha existência? E fiquei feliz em depositar (é exatamente essa a palavra), tal como uma oferenda, meus três filhos.
Todos os seres vivos são especiais. Somos todos irmãos nessa fraternidade da Vida.
Às vezes nos prendemos tanto às palavras e nomes que nos esquecemos de sentir o que verdadeiramente somos. Sou mais que meu próprio nome. Este apenas me aponta, me designa, mas não dá conta de expressar quem sou.
Mediante essa experiência transformadora, reveladora e muito pessoal, percebi que posso ser melhor do que tenho sido para, quem sabe?, poder depositar mais tributos à Vida além dos meus três filhos. Compartilhar é uma forma de alargar essa possibilidade.
Um beijo, minha querida amiga de jornada!
Excelente texto! Inspiração Divina! As verdades humanas são elaborações sofisticadas da linguagem e metalinguagem. Somente na arte, na metáfora, na forma mais poética e mítica das palavras é que se pode entender o devir e o sentido da vida... Cíntia, parabéns; você encontrou a verdade que precisamos e só pode ser expressada artisticamente. O sentido do viver deve ser superado, a conceito temporal de existência deve ser reformado. Tudo que se resume em palavras já foi superado. Que venha o novo devir, que venha o desconhecido, que os conceitos morais não sejam uma prisão do espirito, mas superações do modo de viver! Vamos criar atividades, expressemos criatividade, arte, amor! As curvas do eterno retorno não nos tiram da órbita equilibrada do universo mas nos apresentam o novo dentro da espiralada expansão da consciência!
Ronaldo, acho que é por aí mesmo... Existem momentos em que percebemos o quanto as palavras são insuficientes para dar conta das grandiosidades. Somos devir. Mas, talvez porque a consciência de ser devir seja por demais assustadora (quando pensada em comum acordo com os "conceitos morais" que aprisionam o nosso espírito), cotidianamente nos construímos e projetamos como seres unos, apartados uns dos outros e do nosso entorno. Obrigada por suas palavras!
Postar um comentário