02/01/2012

Timeline do Facebook: nova forma de (re)presentar o "eu"

Trecho do vídeo de divulgação
da Timeline do Facebook.
No final de 2011, finalmente recebi um convite do Facebook para experimentar a Timeline, novo recurso de organização das informações do perfil.
Já me deparei com várias publicações esparramadas pela rede que tratam do "como" usar ou configurar a Timeline. Minha proposta, para este post, é de refletir sobre a Timeline como nova forma de estruturar a apresentação do eu digital.


Antes de tratar especificamente da Timeline, é importante lembrar que os eixos de organização do discurso autorreferencial sofreu diversas modificações de 2007 (quando comecei a pesquisa sistemática sobre a questão da identidade em redes sociais) para cá. Durante muito tempo, tudo o que havia era o perfil de cada um, interconectado a tantos outros perfis, e a insistente pergunta pairando no ar: "Quem sou eu?". Se o usuário do Orkut quisesse saber algo sobre um de seus amigos, precisava visitar o perfil alheio e esmiuçar o scrapbook ou o álbum de fotos (que só continha espaço para 12 imagens!). Para dizer algo sobre si, deveria preencher as diversas enquetes que compunham os perfis social, profissional e pessoal. Não contentes com tamanha limitação, os usuários passaram a escrever sobre si em seus próprios scrapbooks. E, para preservar um mínimo de privacidade, passaram a apagar os scraps recebidos. Quem não se lembra do característico: "Lendo e apagando"?


Área central da página inicial do Facebook.
Antigo feed de notícias.
Os álbuns se tornaram mais espaçosos, os recursos de privacidade trouxeram inúmeros "cadeados" e surgiu um sistema de notificação de atualizações dos amigos. Assim, tornou-se desnecessário sair do perfil próprio para saber o que estava se passando com cada um dos contatos. As atualizações, entretanto, tornaram-se um espaço comum com informações compartilhadas entre aqueles que estão visceralmente conectados. Depois de roubarem um espaço do perfil, ganharam autonomia. No Orkut, comparecem logo no início como informação privilegiada. No Twitter, este espaço comum e dinâmico é chamado timeline e reune todas as publicações daqueles que o usuário optou por seguir. No Facebook, este espaço é o antigo feed de notícias. Apesar de não utilizar mais este nome, continua ativo como largo corredor central da página inicial e apresenta as postagens de todos em ordem cronológica ou, se o usuário preferir, classifica-as como "histórias em destaque". O perfil perdeu tanto a importância como base de operação primordial que nem é preciso estar nele para publicar: no feed de notícias há o recurso de publicação de status, foto/vídeo e perguntas, como pode ser visto na imagem.


Mas... por que o perfil individual foi eclipsado pelas áreas comuns de conversação e lista de atualizações? Porque, supomos, são áreas de alta visibilidade. E assim o são porque não dependem do esforço deliberado para recepção do conteúdo. Ou seja: na situação anterior, as postagens de um usuário só seriam vistas por aqueles que se dispusessem a visitar o seu perfil. Essas postagens, ao lado das enquetes e dos scraps dos amigos, são elementos constituintes do corpo espectral, do "Quem sou eu". Agora, as postagens são fragmentos dispersos, misturados a outros de outros usuários, constituindo um contexto de exibição único (já que os entrelaçamentos dependem do conjunto de amigos interconectados; essa área comum só será exatamente a mesma para usuários que tiverem exatamente a mesma quantidade e qualidade de amigos).

Acontece que o eixo "Quem sou eu" foi radicalmente substituído pelos eixos "What´s happening?", "What are you doing?" (do Twitter) e "No que você está pensando?" (do Facebook). O que há em comum nas três perguntas mais recentes é o fato de operarem com o gerúndio. Radicalmente diferente do monolítico "Quem sou eu", os novos eixos são dados à proposição do ser como evento e devir (conforme concepção de Deleuze e Guatarri). Mas... verdade seja dita: os usuários do Orkut alteravam constantemente o campo de texto "Quem sou eu", até que a plataforma complementou o perfil com a linha de status. Ambos ("Quem sou eu" e status) continuam presentes no periclitante Orkut.

Timeline de Cíntia Dal Bello no Facebook.
Destaque para a "capa" (imagem de abertura do perfil).
Por que estou realizando todo esse resgate?
Porque a Timeline do Facebook, ao contrário do que se viu até então, revaloriza o espaço do perfil como ápice do processo de espectralização da individualidade e... novidades! Promove o registro da história individual e o facilita o resgate de suas experiências passadas na plataforma - o que, em meio ao excesso informacional, era algo muito complicado de ser feito.

As plataformas ciberculturais de relacionamento e projeção subjetiva não estavam preocupadas com o registro histórico das publicações, embora sempre as tenha ordenado cronologicamente para apresentar com certo destaque as postagens mais recentes. Eram, antes da Timeline do Facebook, absolutamente centradas no presente do agora. Na medida em que é possível "olhar para trás", novas preocupações deverão surgir no horizonte daqueles que se (re)presentam nos perfis. Ainda que as coerências e coesões tenham sido desmistificadas pela psicanálise e também pelos pensadores pós-modernos, ao dar visibilidade "linear" para as publicações, o processo de espectralização e composição de narrativas sobre o "eu" ganham outro status de complexidade.

Ficarei atenta para poder tratar dele em outra oportunidade. 

6 comentários:

Diego Oliveira disse...

Oi Cintia,
Muito bom esse post. Acho muito interessante a pegada com que você e o Evelson analisam essas mudanças. Considero que trabalhos como esses devem fazer parte do cotidiano de qualquer pessoal que esteja na área de pesquisas e até das que estão diretamente ligadas ao lado comercial das redes, para poder identificar as tendências e saber o que já está sendo feito e o se pode fazer. Li esse post como uma verdadeira aula analítica. parabéns. bj

Cíntia Dal Bello disse...

Diego, obrigada pelo feedback! A Timeline do Facebook, de certo modo, representa uma espécie de "retrocesso": hoje se tem falado tanto de "pós-História" ou "morte da História"... e lá vem o Facebook com sua Timeline, valorizando a história pessoal de cada um e chamando os conteúdos publicados de "novas histórias". Há algum tempo formulei a tímida hipótese de que o "encantamento" dos perfis sobre nós está no fato de permitirem que possamos "reconstituir", ao menos ficcionalmente, a perdida sensação de que somos UM, coesos e coerentes. A Timeline pode ajudar nesse sentido. Vamos ver!

Ellen Aguiar disse...

Concordo com o Diego, o post ficou bem interessante e faz a gente pensar no que o Facebook está se transformando. De rede social passou a ser um "diário" (individual, mas público) de nossas vidas. Achei muito interessante quando olhei a minha própria Timeline e vi que podia adicionar fotos ao momentos importantes da minha história, como meu nascimento e minha formação. Mais interessante ainda foi quando vi que na linha do tempo aparecia o ano de 1995, na hora achei estranho, pois não lembrava ter publicado algo relacionado a este ano. Quando cliquei, o Facebook logo me lembrou que em 1995 nascia o Lucas, meu irmão mais novo (achei incrível)! A Timeline linka os nossos perfis, por marcarmos nosso parentesco. Concordo que é uma tentativa de valorizar a história de cada um, concentrando as informações. Não sei se é muita viajem da minha cabeça, mas talvez a concentração e valorização das "histórias", seja uma forma de tornar os relacionamentos virtuais mais "humanos", se é que podemos dizer isto.

Cíntia Dal Belllo disse...

Ellen, por um lado, fica mais complicado para um fake se estabelecer neste ambiente. Não bastará mais forjar que tem amigos normais... também deverá forjar toda uma história (e ter imagens para a maior parte dos momentos marcantes!). A não ser que o usuário roube a vida de alguém para montar o se fake, como simular toda uma história? (Não estou dizendo que é impossível, mas que fica mais difícil). Além disso, a manutenção de sua história pessoal no face cria um laço fortíssimo com a plataforma. Quem vai querer sair, sabendo que sua vida inteira está lá? A principal diferença entre redes sociais e blogs era o fato das redes não organizarem as informações para rápido resgate. Isso acabou, e creio que o face inventou uma forma toda especial, específica para redes sociais mesmo, de lidar com o registro temporal.

Ellen Aguiar disse...

Cíntia, é exatamente isso. Com a dificuldade para criar fakes e o registro das histórias (entrelaçando os perfis, através de parentescos e amizades) me parece que as relações vão ficando mais humanas. Confesso que já cheguei a pensar em desapareSer do Facebook, mas quando vejo todas as fotos, postagens, comentários, "amigos" (reais e virtuais)...não tenho coragem (acho que a palavra coragem é forte, mas é mais ou menos isso que sinto). Como você disse, criei um laço, não só com a plataforma, mas com ambiente que o Facebook proporciona. A Timeline só veio reforçar isso.

Cíntia Dal Bello disse...

Daí o Facebook criar os "mecanismos anti-suicídio" que tratei em post recente! É muito interessante poder desapareSer e voltar depois! Os laços não se perdem, as imagens permanecem, é como se você nunca tivesse saído!

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